sábado, 17 de dezembro de 2011

O Abismo...


No principio havia um abismo de silêncio...
Ela, nada entendia. A aparente calma parecia paz, mas era tormento de um êxtase que ela confiava toda e deixava ser engolida. Coração de moça, pulsando nas mãos. Já havia saido pela boca. Segurava-o com todo cuidado como se estivesse protegendo o mundo.
Ele a olhava como se fosse devorar um pedaço de sua alma. O moço era mais impulsivo e rompia com o martírio contido: falava das futilidades masculinas; e de futebol ela nada entendia. Ela falava dos livros que já havia lido e ali se encontravam e se entendiam. Trocavam versos, prosas e poesias. Havia uma alegre camaradagem.
O desvio do assunto era a distração das caricias inexplicáveis numa parte desconhecida deles.
Ele ficava envergonhado com o sopro de realidade que invadia seus pulmões e fazia-...o respirar a leveza de um coração emaranhado de ternura sensível – como em sonhos de amor pela menina. Ela era rude e apaixonada. Ele durão e sensível. Disfarçavam.
Assim, caminhavam um ao lado do outro em passos lentos. O receio das mãos os traírem e se entrelaçarem, fazia-os encompridar os passos para que numa pressa desesperada pudessem sobreviver ao desconhecido que inaugurava.
Caminharam juntos por um longo período. Caminhavam apressadamente: Era medo. Talvez da infantilizada sensação que arrepiava a perna da moça e causava frio na barriga do rapaz – como numa descida na montanha russa. Era desejo de ser maior do que era. Eram crianças.
No segredo dos olhos eles revelavam e compartilhavam seus íntimos desejos que ardiam em seus corpos em carne viva. E nas brigas se afastavam para depois se aproximarem com um calor escaldante e um frio na pele, ainda que distante. Estavam perdidamente apaixonados e se faziam de desentendidos.
Cresceram: ainda desajeitados com o coração na mão e o mesmo descontrole das palpitações desobedientes. Prosseguem nesse romance com a vida que trata logo de criar peças para que eles a encenem: Amam tanto que não lhes cabem.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O amor me deixa em carne viva

Tem momentos que eu procuro todas as respostas possíveis para isso que tanto me arde, pulsa, lateja e me faz adormecer. Batalhas perdidas porque há algo do indizível, do inexplicável que eu bem sei ainda que não saiba.  Então, eu tento. Tento encontrar as respostas. Ninguém sabe definir o amor, ainda que o sinta. Perco-me nisso e encontro com o coração pulsando nas mãos. Você está ali, sem pensar em nada e logo se entrega. Eu fico na defensiva, afinal, preciso me conter, senão te devoro todo. Porque para amar não precisa pensar sobre isso que  ultrapassa, alcança e faz arder em chamas. Vivo em carne viva, despida de mim e revestida de desejos. Agora, não mais penso e apenas sinto. A delicia de amar e lamber os lábios na mais suculenta voracidade que há. São os meus desejos de te devorar. Te devoro com o olhar, com o calor do corpo desnudo e no gozo do sexo ardente.
Você tira minha roupa e me chama de sua. Minha vontade é de roubar e engolir você em mim. Eternizar e unificar nossas vidas, sem deixar pequenos detalhes de nós dois para trás.
O amor me deixa em carne viva. Você me deixa adormecida e num terno laço de almas me faz pulsar, arder e latejar com o embalo da trilha sonora das batidas do coração. Foi a chama desse amor que me adormeceu e num sobressalto latejou numa deliciosa dor de você em mim: porque eu te amo tanto que me dói. Uma dor deliciosa que me faz amar num desejo voraz de te devorar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Confusão.

É fácil confundir amor com paixão. Paixão com tesão. Ilusão com realidade.
As batidas desordenadas e balanceio da alma numa submissão pura do corpo. O coração em ritmo de samba. O corpo à espera do toque do outro. Um beijo. Um abraço. Um amasso.
E assim, tropeça na paixão e cria um conto de amor. Ou vice-versa. Ou tropeça e cria. Doce tesão. 
Mas, amar é querer estar junto, rir com o riso do outro. Enxergar com sua visão. Ser a menina que enche seus olhos de beleza. É chorar quando o outro chora e secar a  lágrima no mais sublime desejo de amar para além do que se é. É desejar sustentar uma relação paradoxal. É criar imagem no real para suportar a realidade. Porque vida sem amor não é vida não. A mais digna invenção: O amor.
O amor é construção. Porque a gente se constrói com o outro. Os fios que tecem a nossa existência estão amaranhados ao novelo dele. É aprender a lidar com o outro respeitando seus defeitos. É se irritar quando ele deixa a toalha molhada em cima da cama ou deixar o sapato no meio da sala, mesmo depois de você ter reclamado centenas de vezes. É se irritar quando ela demora para se arrumar ou tem delírios de ciúmes. É reconhecer-se nos olhos do outro que revela as nossas próprias dificuldades e apresenta as nossas qualidades. Ou seja: Um laço que se prende com inicio, meio, fim, recomeço, reconstrução, sustentação. É desentender-se, entendendo-se. É sentir raiva por alguma falha mais continuar amando. É amar com defeitos e qualidades. Amor verdadeiro não acaba, mas o fogo apaga ainda que haja um fio de chama. Porque para amar é preciso aceitar a incompletude do outro. Saber que a metade não se completa, mas complementa. O amor não elimina uma falta que temos, mas, ameniza o desconforto. A paixão acaba quando o assunto desvanece e não tem espaço para a discussão. Nessas horas nada mais importa porque o que os unia caiu no chão. E então, não sabe se amou ou se apaixonou. Não passava de ilusão. Quase uma confusão. Talvez, a paixão seja uma fusão...O que nos tira o fôlego e nos deixa com o coração na mão. Ou não. Não sei. Me perdi, confundi.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O desconhecido.


Estava sentada na areia da praia, sentindo a brisa tocar meu corpo. Sem pensar em nada, sentia arrepio de pele e alegria de alma que, apesar das dores da existência, permitia-me sentir a alegria de ter nascido e a tristeza de ter resistido a sentir o gosto e a doçura da vida desconhecida em mim. Eu precisava desmoronar para me edificar e enfrentar o medo do precipício. O desconhecido. Uma vida no infinito da quimera e da incerteza do amanhã. Porque existir dói, mas viver é suportável e vivível quando não se busca explicação para a vida. Tinha pedaços de vida perdida na esquina.
Eu era naquela hora uma criança deslumbrada com a beleza do mar. E pensei na vida como uma adulta. Eu queria arranhar o céu, mas roia minhas unhas. Era a ingenuidade que anunciava que a criança não se torna adulto. Mas a gente vive a brincar de ser adulto se ainda é criança aqui dentro. Sentia febre de amor. O amor permanece infantil. E não adianta tentar mudá-lo, porque amor não muda, permanece assim. As formas de se relacionar sim. Essas mudam.
O desconhecido. Com um apelo no olhar revelava os segredos de seu vazio de alma e a procura pela inexplicável permuta de sentires. Abreviavamos as despedidas e como se colocasse uma vírgula no conto, ele me olhava e nada dizia, apesar de sentir o coração acelerar e saltitar em pulsações.Eu adormecia sob a luz do olhar dele.
Eu estava destinada a realidade. Minha obrigação era viver no enfado da ambivalência do amor de mundo; e ninguém me diria mais tarde que era amor e desalento. Era exaustiva a jornada ideológica que me conduzia no caminho das pedras e das marés. Aliás, eu sequer me aproximava da profundidade.
De repente, despertei. A vida é escrita nas profundezas oníricas e editadas na realidade. Estava sonhando. Meu amado estava roncando alto.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Não é vida! É respiração e transpiração.

Não aceito imperativos dos outros, não.
Fui e sou chamada de ovelha negra, mas nem vida desregrada eu tinha e tampouco tenho. Só queria escrever crônicas a minha maneira.

Acredito que nem todo ser que vive tem vida...Viver não é simplesmente respirar!
Justamente por isso, faço meu viver interessante. Viajo pra lugares incomuns, se tiver que me mudar pra outro lugar o faço sem titubear, converso com estranhos e ouço histórias trágicas, dramáticas, fantásticas e duvidosas.
Não sou de obedecer cegamente aos imperativos da sociedade, tipo :
"Consuma e será feliz!" "Está triste, tome pílula da alegria". "Tenha mil seguidores e será o Cara"
Felicidade não se compra e não há receita. Ser feliz não se tenta, ou o sujeito é feliz ou não é!
Pra ser o "cara" tem que ser bom o suficiente e conhecer quem se é. É fácil ser admirado pelos outros, o difícil é admirar o feio dentro de nós.

Não sou aquela que quer ser legal, não falo o que você quer ouvir, o que digo assumo, o que você interpreta é problema teu. E não gosto de pessoas passivas diante da vida que vive a se queixar e não faz nada pra melhorar. Sou esse tipo assim...
Não confio em pessoas que se sujeitam a posição de objetos de mercadoria, são pouco confiáveis, aceitam trocas a preço de banana.
Essa, gente que vive de imperativos...
Foi viver a vida narrada e ficou oprimido por não tecer sua própria narrativa.
Saiu correndo atrás de sua vida, os quarenta e cinco do segundo tempo chegou primeiro.
Correu tanto que chegou ao final, transpirando e ofegante.
Depois, lamentou-se: A vida é curta!
Isso não é vida. É respiração e transpiração.
Minhas pernas são curtas, mas dou passos longos e gradativos. Meu tempo corre numa velocidade implacável. Então, desobediente como sou, agarro a caneta e a vida se abre como um livro para eu escrever o que faço dela.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Não era amor, era orgasmo.


Ah, tem "amor" que não dói e faz tão bem quanto de fato, amar. Por uma noite, se tem um " amor". Amor que escapa entre os dedos, não se prende entre as pernas, mas se ganha no ápice. Esse é o amor que muitas mulheres, inconscientemente, acabam por se entregar na doce ilusão e confusão de que sexo e amor andam de mãos dadas. Se puder; não faça cara de quem discorda com isso, porque não é somente mulheres carentes que vivem nesses tropeços de amor e sexo, sexo e amor, mas muitas mulheres “decididas” e livres também tropeçam nos verbos. É desse jeito que as (des)iludidas ganham um “amor pra noite toda”. Desiludidas com os relacionamentos que não mais garantem uma vida amorosa ou matrimonial sólida, como de nossos avôs, pais e demais antepassados. 
Que sexo nada tem a ver com amor todas afirmam saber, mas muitas mulheres confundem o fato do sujeito conquistador fazê-la transpirar e relaxar com o orgasmo como sinônimo de que o que houve é ou foi amor. Depois de uma noite daquelas há que se questionar se o que houve foi somente uma relação de consumo (consumo com a tensão) ou uma relação de amor. Mas, questionar pra que se está bom essa doce e deliciosa ilusão de que a noite (in)esquecível foi marcada por um sonho de uma noite de amor? E outra, se parar pra pensar vai causar uma angústia danada e dar de cara com a falta de um suposto “amor pra vida toda” que ainda permanece no imaginário, pode assombrar demais a sensação da mulher autossuficiente.
Não tenho dúvidas de que a comparação do sexo ou amor (que seja conforme sua interpretação) como uma relação de consumo despertará as críticas das iludidas, convencidas e enganadas de que sexo e amor andam juntos ou que podem encontrar-se no mesmo instante. Ei, uma noite caliente não significa amor ardente. Favor, não confunda sexo com amor. Sexo é ato explicável. Amor é fato inexplicável. Não é porque a transa foi boa que é amor. De ato pra fato basta a fantasia para que cada uma crie sua história na tentativa de suprir uma falta que tanto assombra quanto a faz desejar.
Com todo o respeito às adeptas do sexo casual, prefiro as boas brigas com meu Romeu, tendo a certeza de que amor não é simplesmente beijos, amassos, orgasmos e ligações no dia seguinte. Amor é outra coisa... 
Se as mulheres não confundissem sexo com amor, não teria sentido a ansiedade que as assolam no dia seguinte enquanto espera uma ligação do amado. Até descobrir que não era amor, era orgasmo tomam-se doses de sexo casual na tentativa de se ter o "amor pra vida toda" numa noite. Então, quantas noites calientes seriam necessárias para se tecer o amor?

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Na estrada tinha um pé de limoeiro

Na estrada tinha um pé de limoeiro. E com os pés das teimosias, fazemos escolhas em que os sabores contidos foram pouco ou muito agradáveis.
Quero ver quem nunca experimentou!
Ah, falando em sabores... Já senti vários tantos. Ultimamente tenho degustado o doce sabor de melancia (desconfio, viver não é só isso), mas sei que a vida nem sempre é tão doce e refrescante. Da melancia fruto rasteiro, ao limão pé de limoeiro, lambuzo-me por inteira e inteiramente mergulhada num idílio, crio outro sabor senão o sabor que tempera minha vida. De tragédias gregas a lírica poesia.
Minha visão realista e às vezes poética da vida fez-me perceber que os limões que caíram em cima de mim ou aqueles em que eu escolhi colher no pé deixaram marcas, gostos, desgostos e novas receitas com o sabor que foi, ficou e se transformou. Já provei de limões, que de tão ácidos provocou-me saliva na boca e destilei as palavras que a inundavam. E o faço também agora, que de tão doce que está, quero um sabor pra dosar. Há que se complicar para tornar o desafio de caminhar mais excitante.
Se eu encontrar um pé de limoeiro em que não alcanço, acabo cutucando com uma vara de tamanho suficiente para derrubar os limões em cima de mim. Porque quero justamente aquele lá, o impossível. Como re-conheço esses meus pés teimosos, me previno e tenho sempre em minhas mãos açúcar e água suficiente para fazer uma limonada.
E nesse caminhar, não há quem não provará desse sabor, porque na estrada tem sempre um pé de alguma coisa em que se experimenta o fruto. E a gente escolhe por teimosia, leva a mão pra pegar o limão ou aceita o que outra mão pode lhe oferecer (você aceita se quiser, escolha sua). Seria enjoativo e entediante encontrar na estrada somente os pés de melancia, e seria amargo e azedo viver embaixo do pé de limoeiro. E afinal, que sentido teria sentir o mesmo gosto o caminho inteiro?
Tomando o sabor que for, quem escolhe destilá-lo é a gente. Poderia ficar azeda ou um tanto melosa, prefiro equilibrar  isso e separando e plantando as melhores sementes sem jogar frutos podres no caminho dos outros.
Depois, de escolher e tomar uma dose azeda a gente fica acusando a vida ou outros companheiros de caminhada de serem injustos. Mas, a vida é muito generosa em permitir escolhe-la. Os caminhantes nem sempre o são tão generosos. Injusta? Somos você e eu, que responsabilizamo-la pelos pés de limoeiro na estrada, só para não assumir que fizemos a escolha no pé de fruta errado. A vida nos conduz nessa estrada, mas nós escolhemos fazer o que quiser com o que encontramos pela frente. E o que nos acomete sem que façamos escolha? Ah, são caminhos que servem para encontrar novos sabores.
E assim prosseguimos, re-petindo o mesmo caminho saboreando outros gostos. E às vezes, nada tem a ver com o pé de limoeiro, mas os pés que caminham em direção ao mesmo.

Arts Bighouse