quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ei, você é louca!

"Ei, você é louca! Você é estranha! Maluca!".
Ah, sou sim! Em menores doses. Enquanto eu escrevo, você me descreve. Por vezes, desconheço a descrição, já que sou tão discreta e não deixo pistas (creio eu!). Deve ser o lado avesso que desconheço. Mas reconheço que o desconhecido é familiar.

A loucura tão comum e frequente na cultura provoca efeitos nada indiferentes. Pelo contrário, suscita sentimentos tanto de repulsa e temor, indo pela via da exclusão quanto de admiração. Sim, admiração daqueles que são conhecidos como geniais. É meu amor, vai me dizer que tu não admira Van Gogh? Salvador Dalí? Clarice Lispector que tinha uma fragilidade psíquica?
Ah, mas a minha loucura perturba teu status quo. Fere seu mundo, tanto te assusta quanto te atraí!
Romeu, não se assuste! Tu não sabes do amanhã! Pense que se num determinado momento de sua vida, você se ver confrontado a responder a algo...(por exemplo: O que é ser pai? o que ser homem?). Se suas possibilidades internas e psíquicas forem insuficientes, poderá ouvir outras vozes...Criar uma realidade para suportar o insuportável, a sensação de perder o que sustentava, a sensação de fim de mundo, de morte em vida... 

Ah! Não preciso ir tão longe. E às vezes, em que você jogou na loteria e antes de sair sequer o resultado, já fizera planos com a fortuna, sem ao menos tê-la ganho? E quando você sonha? Sonhar é uma forma de delirar.
Quando afirmas que sou louca é porque o insuportável em minha loucura revela algo teu. Porque quem é louco escancara aquilo que não queremos saber, aquilo que queremos manter em oculto, reprimido ou podemos até fazer, em menor dose, discretamente, escondido.

Não temas! O que te incomoda diz respeito a si mesmo e tu não se deu conta disso. Daí, você me chama de louca para sustentar a si mesmo como "não louco", "normal". O insuportável que a loucura suscita é assustadoramente semelhante. Você fica inquieto e incomodado ao me ouvir dizendo isso. Mas na medida em que perder o temor em me ouvir, perderá o temor em escutar a si mesmo e assim vai percerber que normalidade não existe. Existe sim, formas diferentes de enxergar o mundo e tem pessoas que o enxergam a céu aberto. De perto, quem é normal?
Vou cantar uma música pra você!

Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual...
Eu do meu lado
Aprendendo a ser louco
Maluco total
Na loucura real...
Controlando
A minha maluquez
Misturada
Com minha lucidez...
(Raul Seixas)

Imagem: "O grito" é uma pintura do norueguês Edvard Munch de 1893.

4 comentários:

  1. "Quando afirmas que sou louca é porque o insuportável em minha loucura revela algo teu. Porque quem é louco escancara aquilo que não queremos saber, aquilo que queremos manter em oculto, reprimido ou podemos até fazer, em menor dose, discretamente, escondido."

    Como (intrinsecamente, após análise profunda) todos os outros sentimentos - em minha humilde opinião - a rejeição à loucura é justamente o que descreveu acima. O medo do espelho, de assumir a miséria humana, a necessidade de rechaçar tudo aquilo que retire do centro o ser humano, uma vez que por fraqueza (gerada pelo medo da finitude) buscamos as mais diversas sortes de autoengrandecimento.
    Beijos, belo texto :)

    O excesso de lucidez nos leva à loucura.

    Martius Nauticus

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, querida! Bem vinda aqui! Belo comentário! A loucura deixa a céu aberto a possibilidade de sermos reduzidos a uma posição objetal, de morrermos enquanto sujeitos. E enquanto a loucura fica "afastada",pode-se evitar deparar-se com ela em si próprio, evitando assombrar nossos fantasmas. Beijo gigante ;)

    ResponderExcluir
  3. Vou deixar um presentinho no seu mural :)

    Beijos mil!

    ResponderExcluir
  4. Faço minha tuas palavras... Eu sou uma louca assumida, não tenho vergonha nenhuma disso. É uma coisa de pele sabe? De sangue... Minha família inteira é assim e fui criada pensando que não é tão ruim ser um pouco maluco (ou muito maluco em alguns casos). Conheço tantas pessoas que se dizem normais e são tão mortas por dentro. Pessoas que olham pra você com todas os preconceitos e que não vivem um pingo de suas vidas... Fui criada para ser louca com orgulho.. Saio dançando na rua quando da vontade se for preciso.. E posso falar? Sou muito feliz e faço uma porção de gente feliz com a minha loucura..

    Belissimo texto Lú!
    Bjus Anne
    www.anneluisebr.blogspot.com

    ResponderExcluir

Arts Bighouse